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​Jornalista conta, no rádio, rotina dos caminhoneiros e vence Prêmio CNT


Nem sempre a rotina de trabalho de um jornalista permite que ele saia a campo para apurar suas pautas. Mas as grandes reportagens não se fazem de dentro de uma redação. Elas demandam muita pesquisa, conversas, entrevistas e ver de perto a situação que se deseja retratar. Com isso em mente é que o repórter Luciano Nagel desenvolveu o trabalho vencedor na categoria Rádio do 22º Prêmio CNT de Jornalismo, a série “Na boleia do caminhão aos confins do Brasil”.

A ideia da pauta surgiu numa conversa de corredor na empresa onde ele trabalhava, a Rádio Bandeirantes, de Porto Alegre (RS). “A minha chefia me parou e disse que tinha um desafio para mim: viajar com os caminhoneiros e mostrar as dificuldades que eles enfrentam, passando um raio-x das estradas. Eu disse que era para já”, conta. Nagel já havia vivenciado uma experiência semelhante: em 2010, ele pegou carona com caminhoneiros para chegar ao Chile, destruído por um terremoto de 8,8 graus de magnitude, e conseguir fazer a cobertura.

O repórter, então, entrou em contato com entidades do setor e empresas transportadoras, para viabilizar o percurso, que foi da região Sul à região Norte do país. A viagem transcorreu em duas etapas: a primeira, de Uruguaiana (RS) ao estado de São Paulo; e a segunda, de São Paulo a Belém (PA). Ao todo, foram mais de seis mil quilômetros de vias percorridas pelo Brasil, que permitiram ao jornalista conhecer e retratar, aos ouvintes, detalhes das dificuldades vivenciadas pelos profissionais responsáveis por transportar cerca de 60% de toda a produção nacional, em estradas precárias, condições muitas vezes perigosas e falta de infraestrutura adequada.

Foram quase 20 dias na boleia do caminhão. Nesse período, ele fez boletins diários e ao vivo sobre a viagem. No retorno, finalizou cinco reportagens, contando as experiências vividas, as condições das rodovias e apresentando os diversos relatos de caminhoneiros com quem conversou nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais, Goiás, Tocantins e Pará.

A questão mais destacada por Nagel foi a insegurança com a qual os caminhoneiros precisam lidar, seja pela má qualidade das rodovias, seja pela ausência de pontos de parada em condições adequadas. “Só tem postos de gasolina. O motorista abastece, paga R$ 15, R$ 20 para estacionar o caminhão no pátio e dormir, mas sem garantia de segurança. A comida oferecida nesses lugares é de baixa qualidade, custa caro e eles ainda correm risco de assaltos. Porque os postos cobram a diária, mas se roubar, roubou”, conta o jornalista. Durante as entrevistas, ele diz que motoristas contaram ter dormido dentro do caminhão e, ao despertarem, pela manhã, perceberem que o veículo estava sem as rodas. Teve até carreta roubada enquanto o condutor descansava.  E sobre as condições das rodovias, o jornalista resume: “péssimas”. “Não tem motorista que não reclame”, complementa. Uma das situações mais extremas está na Transamazônica, a BR-230. Como parte do trajeto não é pavimentado, os caminhoneiros precisam pagar por reboques para completar o percurso.

Outro desafio vivenciado na produção das reportagens está relacionado às características do rádio: tudo deve ficar claro exclusivamente pelo som. E aí entra a capacidade dos profissionais, na edição, de transportar o ouvinte para a cena, a partir das informações sonoras. “Eu me esforcei ao máximo para o ouvinte tentar imaginar tudo, como se fosse uma radionovela. Usei muito som ambiente. Numa estrada esburacada, por exemplo, deixei o gravador ligado ao lado do motorista, e pegou todo barulho da trepidação, mais intenso nos buracos”, relembra. Sons de buzinas, portas abrindo e fechando, o som das conversas via rádio e entrevistas realizadas na estrada e nos postos dão uma ideia do cenário visualizado pelo repórter.

Para Luciano Nagel, as empresas de comunicação precisam apostar nesse tipo de produção. “O ouvinte ganha informação mais detalhada, mais aprofundada. Isso parece que está se perdendo nas redações, por causa do tempo, da menor quantidade de profissionais. Mas é o melhor produto do jornalismo”. O jornalista ainda destaca a importância do Prêmio CNT de Jornalismo e da satisfação de ter o trabalho reconhecido: “Fiquei muito feliz. Estava concorrendo com nomes de peso, de várias emissoras de todo o Brasil. É, também, uma oportunidade de conhecer muitas pessoas, trocar ideias, conhecer as temáticas e saber como fizeram as reportagens”.


 


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